sexta-feira, 6 de agosto de 2010


Aufklärung?

"Porventura o contender contra Deus é ensinar?"
(Jó - 40, 2)


é inegável a força explicativa de todas as variantes da filosofia da suspeita, nas quais o fenômeno e a experiência religiosa sofrem o juízo e o veredicto de um determinado conceito de razão, a saber

idealista - Feuerbach
materialista - Marx
genealógico - Nietzsche
psicanalítico - Freud


mas não pode passar em silêncio o fato dessas abordagens terem recorrido a um procedimento bastante discutível: em todas elas a religião é explicada a partir de fora de si própria. parte-se da premissa, racionalista e esclarecida, de que a religião, por si própria, é ilusão, ideologia, doença, falsa conciência...
para os investigadores do "laico ofício" a verdade e o sentido da religião não podem se encontrar no horizonte da experiência e no espaço de jogo (linguístico/simbólico ou pragmático/cultual) no qual ela se manifesta. supõe-se que a sua verdade e o seu sentido se acham por detrás, sempre por detrás, num substrato inconsciente ou subjacente que o filósofo, o cientista ou o analista devem desmascarar.


"...ou quem sobre ela estendeu o cordel?"


na filosofia da suspeita a religião é conduzida ao tribunal do laico ofício com sua ciência oficial, com sua razão oficial e com sua genealogia da vontade de poder, com o fim de ser examinada, interrogada, e por fim, levada à fogueira.
toda a riqueza e variedade da experiência religiosa e dos "jogos linguísticos" que ela promove é assim reduzida a essa via de sentido único que de modo autoritário os discursos em causa estabelecem como razão exclusiva.

mas vem a hora e agora é, que deve ser dito em alto e bom som: logos e razão não são a mesma coisa. o logos (ou sentido, Dabar) é o traço distintivo próprio do ser humano. o logos se manifesta e difunde-se numa multiplicidade complexa e policromática daquilo que o Wittgenstein da maturidade chamou de "jogos linguísticos".
(cont..)

já que suspeita então vá até o fim: suspeite de sua suspeita.
já que duvida então vá o fim: duvide de sua dúvida
já que protesta então vá até o fim: realize a justiça que acha que Deus não realiza.

no pensamento hebraico, o acusador (Sata'n) é aquele que nega qualquer possibilidade de sinceridade no homem.

uvas da era promessia e sonho um sonho prático onde a reconciliação entre as diferentes modalidades de ser verdadeiramente humano façam amor com a vida: sinfonia sim, uniformidade não!

___

episódio de Gedeão

eu sei Iahweh Papai...
para que depois eu não diga "minha mão me salvou".
para que depois eu não diga "eu saí dessa por mim mesmo".

tudo que acontecendo está me fazendo admitir que de divino eu não tenho nada a não ser o espírito que te ti provém, Papai...
meus defeitos, minhas falhas, que são as de todos, é o que tenho de realmente imanente. como disse, com aquela humildade dos verdadeiros criadores, Jorge Luís Borges, esse mestre que o Senhor colocou diante de mim quando eu era um vadio errante e peripatético nas solidões de Triste-le-roy: tal

"tal ou qual verso feliz não nos deve envaidecer pois é um dom do espírito que é livre como o vento e pertence a todos, isto é, a ninguém. só os erros são nossos"

o mesmíssimo juízo pode ser feito no campo da moral existencial.

eu sou essa verdade.
___


Asmodeu me seduz no cinema mental (a imaginação, a imagem em ação) mas sua ofensiva faz com que eu me refugie em Iahweh Papai com uma atualidade cada vez mais alerta. isso significa que Asmodeu está nos ajudando contra sua vontade. então Asmodeu se retira a mando do Dragão e nesse momento os anjos de Miguel prorrompem de júbilo: estamos vencendo!
___

certas coisas recentes me levam a perguntar: estamos na Igreja pelo status ou por Cristo? pelas honrarias ou pelo amor? pelo mundo ou por Deus-conosco-no-mundo?
+__+

"não nos abandonaste ao poder da morte"

encarar a realidade é um chamado que a todos convoca.
aquele que foge dela se perde num labirinto com mil corredores de fuga multitudinária.
a grande cidade moderna, a cidade-labirinto, é a figura desse homem.

e veio a mim Natã:
"Tu és esse homem!"
___

Iahweh Papai me desculpe...
para além do funcional, do "pronto" pragmático...
amor...
eu quis muito onteontem meu amor te compreendendo como fazes aquele neném dormir cantando para ele a canção que está em O labirinto do fauno, ó minha pequena Ofélia, oh meu pequeno amor...

O Filho, é, antes de tudo, um relacionamento!
eu sou teu filho, hoje mesmo me gerastes...
tu és meu Pai, eu hoje mesmo te amei.

quero fazer a tua vontade não por casuística, nem por auto-privação ascética, mas

porque

TE AMO!

___

De Iahweh Papai à nação que ele amou:

"ah, Efraim...

passando eu por ti, vi-te, e eis que o teu tempo era tempo de amores.
então estendi sobre ti a minha aba, e cobri a tua nudez. e dei-te juramento, e entrei num aliança contigo - diz Iahweh Deus - e tu ficaste sendo minha.
então te lavei com água, limpei-te do teu sangue e te ungi com óleo.
também bordados lhe fiz, te vesti com pele de arminho, cingi-te de linho fino e te cobri de seda.
te ornei de enfeites, te pus braceletes nas mãos e um colar ao pescoço.
fixei-lhe um pingente no nariz, arrecadas nas orelhas e uma linda coroa na cabeça.
Assim foste ornada e com flor de farinha te nutriste, e de mel e azeite; eras formosa em extremo e chegaste a ser rainha".

a Aggadah encrusta a tradição na superfície do tempo: o nascimento de uma conciência nacional na organização tribal é lida como cortejo e eleição de Deus, ao modo do cortejo dos reis do oriente para com suas eleitas.
eles viam no fato o reflexo de uma realidade maior, oculta e revelante ao mesmo tempo.

facinante
belíssimo.