
do numinoso
A impossível confrontação fenomenológica: para os Gregos, encarar a Ausência que precede e sustenta toda presença, o Infinito que situa e funda o finito (a visão possível, a escuta que nos transe, o gesto como significante primordial) é necessário, mas apenas possível através da presentação mediada, re-apresentada: o face a face impossível e necessário com a Medusa se dá cerceado
(e protegido) pelas bordas de um quadro ou pela rotunda circunferência de um vaso. O Infinito só é tolerável se devidamente enquadrado pelo cerco da significação.
(comentário a um poema de Rainer Maria Rilke)
inspirado pela percepção kantiana do Sublime, Rilke aqui deve ser entendido literalmente. a arte é o começo do terrível, quer dizer: fruir de uma obra de arte é permanecer no limiar, estacar diante do Abismo, contemplá-lo e, desta distante e altaneira sobranceria do olhar, exorcizá-lo. A arte é o espelho que Perseu estende à Medusa.
para os Judeus, interdito a ultrapassagem da fronteira, ao menos pelo sensível
(imagem); devemos nos resignar a ceder o passo e obedecer: “Eis aqui a serva de Iahweh”. Cabe à palavra o desvelamento, sempre mediado, sempre indefinidamente recuado e respeitoso, desta Clareira de Treva. Ou antes: não só o desvelamento, à linguagem cabe indicar (signo ficar) os limites para além dos quais todo discurso é sepultado pela afasia, todo olhar se abisma no thaumazein, todo gesto se inflete ( e atrofia) na direção da tautologia.
A imbricação entre presença e ausência que legitima todo apresentar-se e toda re-apresentação deve-se a um pressuposto finito de reflexão: ao homem não cabe determinar o sentido do ente; o homem, um ente entre outros, ausculta o sentido que preexiste a todo processo de entificação, inclusive o seu. Ele recebe e acolhe. Mediador, receptáculo, foz.. A finitude pressupõe um buraco negro na linguagem, em toda expressão correspondente a uma presença , pois a linguagem é um affaire des hommes, e portanto debitária de uma profundeza , anterior e ulterior - o Éden e o Apocalipse são duas faces de uma mesma moeda: da Presença Ausente de Deus, que possibilita, em sua Retração, a toda descontração significativa da cadeia sintagmática dos entes- que, a cada dito e redito, ameaça soterrar a luminosa superfície onde se inscrevem seus signos redentoristas; falar é jogar – ser jogado- numa arena agônica, num embate de vida ou de morte: a vida é a polissemia, a proliferação do sentido; a morte a afasia, tributária da loucura: a impossibilidade da emissão de qualquer sentido, de iluminar a treva onde se segrega e secreta o ser ( que adora se ocultar, como dizia Parmênides) com o Fiat Luz! da palavra.
Este buraco negro do sentido às vezes nos afronta e fulmina no decorrer da História , como no caso dos muslin, ou Muselmann, homens zumbis que habitavam os campos de concentração, pessoas vítimas de extrema desnutrição que acabavam por desenvolver um radical estado de apatia, insensibilidade e indiferença ao horror que os circundava. Habitantes desta fronteira entre o inanimado e o animado, o humano e o não-humano, imagens limítrofe deste abismo da significação que , em um mesmo e único movimento, descortina o horizonte do sentido; este abismo é a treva de onde emerge a epifania da visão luminosa de Deus, na sarça ardente; do fora de campo, presente em toda presentação metafórica, cristalização de um possível no campo delimitado de uma figura; e da solicitação premente e eudaimônica da Oferta Ética ( a ética é a esfera que não reconhece nem a culpa nem a responsabilidade; como bem o dizia Spinoza, ela é a doutrina da vida feliz). Três faces de um mesmo coup de foudre fatal e irrecusável: da presença pela Ausência, do finito pelo Infinito, do significado pelo numinoso.
(Júnior, detounementado pela técnica situacionista do desvio)
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eu vos apresento Gabriel: um espírito de anunciação.
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Ruah vai nos salvar