
Messiah
"L'expérience du désert , c'est aussi l'écoute, l'extrême écoute".
Edmond Jabès, Traité Avot I
"mas a hora vem, e agora é, que nem neste monte e nem em Jerusalém adoreis a Iahweh, mas sim em ruah e verdade por que Ele procura aqueles que assim o amem".
(João - 4, 23)
para o judaísmo, o Messias é um evento, um acontecimento, não um ser (Jesus)...
é um tempo Outro, que revoga necessariamente o homem "como essência", na medida em que revoga o sujeito e seus atributos, todo sujeito e todo atributo.
revoga a cópula.
o cristianismo Alexandrino essencializou o messianismo num ser, à imagem e semelhança do homem (não o contrário, aliás). limitou o evento, o horizonte-clareira onde todo possível mundo pode vir a se dar, em uma fortificação, uma substância, que bloqueia todo horizonte, toda visão: Jesus Cristo, Jesus o Messias.
Jesus encarnou (como um ator "encarna" seu papel) o tempo-messias, isso é diferente de SER o messias. até porque a noção de substância - do ser- era estranha à mentalidade hebraica. em Jesus o tempo messiânico acontece no homem, e, como a abertura do precedente, em qualquer homem. mas em sua história própria ao lado, paralela à história do homem Jesus de Nazaré: como linguagem/, como Dabar, como mensagem viva, mas nunca se confundindo com o homem, nunca se substancializando.
foi a patrística grega que inaugurou o homem-Deus.
a única forma de revitalizar a dimensão escatológica do messianismo: libertá-lo de todo essencialismo, recuperá-lo como negação da metafísica (ou melhor, revogação. a metafísica é que nega o messianismo, o escraviza e cristaliza), como Abertura.
uma questão de hermenêutica, donc affaire de finitude: esta despossessão não funda numa nova identidade, e a "nova criatura" consiste apenas no uso e na vocação messiânica da anterior. não um novo mundo (trans), mas o nosso mundo visto com novos olhos...
a vocação messiânica inscreve uma fissura na identidade, a fissura da Diferença, de um historiar do sentido, de um rarefazer de todos os usos e atributos que suportam a identidade; quando a identidade volta a si, já não há mais um "em-si".
já não há mais a que voltar: o tempo que resta, interstício entre a identidade e a diferença.
entretanto eu/este acontecer-homem pode/posso dizer também, porta-voz de Iahweh Deus corrosivo do pseudo permanente e em nome do processo: "eu sou o fim".
do contrário a voz que me chama continua inumana: impronunciável.