
as figuras sorumbáticas nas cortinas escalavradas se cumprimentaram uma a uma e Elemiah entrou no mundo das formas.
o sacrossanto na catarse de sua chegada exorciza o fantasmagórico de cada canto do meu mundo.
a começar por:
Dabar ruah Basar e eu nunca mais fui o mesmo.
imediação não se comunica.
dimensão do segredo.
mas a alma gesticula: foi como estar num globo de neve: tão bonito, estranho e irreal, como alguma coisa que aconteceu uma vez. como se uma parte esquecida de mim tivesse retornado, jasmim das origens.
em vão.
"talvez um pássaro tenha cantado e senti por ele um pequeno carinho,
do tamanho de um pássaro"
nostalgias de uma tarde que não me foi avara.
campus do vale - 24/11
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chá dos filósofos?
"mais um santafeciano, Amadeo amigão!":
exatamente: um pé só.
como sempre:
eu não conheço = eu não reconheço.
eu não sei = eu não aceito.
então tá.
são as armadilhas do empírico.
sério, nós conhecemos o depositário. nós somos, por condição, ateus. nós somos, ontologicamente, a-teo. Deus não precisa que ninguém o negue, ele mesmo faz isso: nós. "materialismo negativo e imanente" é redundância. matéria é negatividade.
um dia a transcendência, a rostidade do ser, quis ser relação e se negou: o caos se fez cosmo. cai Tamuz, o pombo paira sobre a face do abismo.
nós, a natureza, o cosmo: a-teo. Deus é o absolutamente não-nós. o inteiramente outro. alteridade absoluta.
o que não significa que não pode ser reconhecido.
o que não significa que não pode ser aceito.
nada fala tanto de nós quanto o não-nós. isso já está posto como problema antropológico.
a modernidade está num beco sem saída porque quis reinventar a roda, quis buscar o sentido do homem no mais insólito dos lugares: nele mesmo. tanto faz se assume o tom triunfalista do liberalismo ou o "tom elegíaco" dos viúvos da sua ilusão: a externalidade do sentido nunca vem à baila.
a modernidade, tal como está, não tem nada de original. é o "renascimento" de algo vencido , ou seja, uma paródia do velho mundo helênico-romano (saber/poder) posto em pé para se contrapor ao cristianismo enquanto tal, usando a contraposição à Igreja como justificação para voltar ao mundo dos mortos. a modernidade, tal como está, é um retrocesso disfarçado de tecnologia. a modernidade, tal como está, é anacrônica.
por isso que a revolução carniceira, o absurdo, o desespero, a náusea e a ilusão, aparecem como uma honestidade diante do delírio cínico e sangrento da burguesia. mas até onde isso tudo não é mais reativo do que reflexivo? ora, "tomada violenta do poder" é o colonialismo, não é a existência que é absurda, absurda é a cultura burguesa, desesperadora é a reprodução da lógica da necessidade - necessária para a reprodução do capital - nauseante é o ethos do mercado e, enfim, ilusório é o ideal de homem que o iluminismo sonhou e não Deus.
é o marxismo negativo mesmo? então que ele vá até o fim: que negue-se a si mesmo. que recuse ser apenas um filho do tempo e faça as pazes com sua verdadeira origem.
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"foi como se cruzasse armas, um interlocutor mais complexo" - (A busca de Averróis - Jorge Reacionário Luiz Borges)
"Humildade e certa aceitação crítica da finitude humana. É isso, algo inseparável de um tom elegíaco, estranho ao cristianismo"
(Cláudio Duarte, sobre o marxismo)
eu me pergunto
humildade ou desespero?
quem merece elegias é a longa era fetichista, não a existência humana.
o cristianismo - o verdadeiro cristianismo e não essa caricatura panfletada pela sofística marqueteira da modernidade e pelos novos fariseus - não é triunfalista nem elegíaco. é, essencialmente, escândalo*: o homem só se constrói sobre o fracasso. sua grandeza é sua insignificância, sua glória é ser um nada. a "aceitação crítica da finitude humana" é condição irredutível para sua infinitude.
Jeremias viu tudo aquilo pelo qual tinha lutado a vida inteira, ruir. Jerusalém caiu. seu discípulo, Baruc, se desconsola:
"minha alma procura e não encontra repouso, dia após dia desfaleço".
recebe então (pelo próprio Jeremias) o seguinte oráculo:
"eis que estou arrancando tudo que plantei
e pondo abaixo tudo que edifiquei
e isso em toda a Terra
e tu procuras grandezas?
não as busques!"
fracasso.
"só sobraram dois ossos e uma ponta de orelha. o resto o Leão comeu.
mas com isso que sobrou Deus vai fazer grandes coisas"
* o cristianismo é a origem da modernidade, com ele começa a modernidade. só dele pode vir os subsídios originais para uma crítica radical da modernidade. incluindo aí tudo, inclusive o marxismo.
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analogia est, esse é o caminho
(status: rindo de canto)
Avdotia está jogando tarô, inocente de suas próprias profundezas.
saiu o ermitão: "símplices com as pombas, prudentes como as serpentes. eis os filhos do homem".
ecce.
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psicanálise e as colorações do limite:
Leonardo: eu nao sei! tenho mil hipóteses mas nenhuma certeza, nenhuma.
Cristina: mas Leonardo...a psicanálise parte justamente do que a gente não sabe.
não sei o que não sei.
volto à idade dos porques.
porque Leonardo não sustenta a exaltação do douto moderno, pois o que sustenta é um furo em seu saber.
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relaciona os termos, reconhece ali a sagacidade da salamandra? a inocência me imunizou, um dia apareceu o agudo amor de Deus.
aquele inocente supliciado e eu nunca mais fui o mesmo.
queria saber: é tudo uma questão de fé?
a ciência acredita na intelegibilidade do mundo senão não investigava...
veio 2009 e eu vi que a psicanálise e a fé partem do mesmo ponto: do ouvir.
do receber.
"eles conheceram o depositário"
somos escândalo.
"sua glória é ser um nada".
atravessados.
Cristina sabe do meu reles-chão e eu tb sei
o que não sabemos, o atoleiro do transcendental e o indizível da verdade:
foi a fé que me trouxe de volta do mundo onírico.
mais eu não sei, mais nos não sabemos
o essencial está sob um veu de cifras, de sinais
detrás de uma nuvem
a nuvem do não-saber.
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"não
eu não quero ver
não, eu não quero ver
diga a lua que venha pois não quero ver o sangue de Inácio na areia
eu não quero ver
não
ó branco muro de Espanha!
ó negro touro de dor!
não
eu não quero ver!"
(Garcia Lorca)
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(confio e espero, sei q apesar de mim estás comigo, que pai desiste do filho?)
...queria mais letras capitulares - em iluminuras - e não acho.
quem queria? quem somente "quer"?
sussurrantes, infinitamente sutis, essas perguntas chegaram para ficar.
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há uma sedução que muito bem faço quando me deixo conduzir por ela. há uma alienação que me abre os olhos quando opto por ela.
a nuvem do não-saber é a condensação do paradoxo.
seu movimento tangível.
eu sou puro não-sei.
por isso posso receber.
tudo o que sei foi recebido. o que sei não me pertence.
meu saber não é meu
eu sou o que sei
logo, eu não sou meu.
breve per-sonare o recebido.
o grande "sim" subversivo.
o paradoxo do "sim".
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dos eixos:
Babel.
a megalópole, a herança de Caim, o cálice de imundícies.
sim
a filha lasciva do inimigo estrangeiro do mundo.
juízo prestes:
"quanto ela se glorificou e em delícias esteve
dai-lhe outro tanto de tormento e pranto"
a mão invisível do mercado, panóplia no leme da cifra, a rainha dos mares. auto-justificação sem fim, uma paródia grotesca do paraíso:
"pois diz em seu coração: estou assentada como rainha, viúva não sou, pranto nunca hei de ver"
crise. Mene - Tequel - Phares.
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não me abandonou ao poder da morte multitudinária.
cada queda traz mais força.
é outro mundo, realmente
é outra vida, deveras.
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como gostaria de partilhar com ela
mas há um interdito
um "não" praticamente impossível de ser revertido.
a dimensão do silêncio.
Elemiah-Cristina: Por que ela, Leonardo?
- não estou bem certo...mas agora olhando para trás...
Cris: sim?
- muito verdadeira!
e ainda me sinto dela mesmo sabendo que não sou dela
mesmo sabendo que eu sou ela.
avlogitário.