quinta-feira, 17 de junho de 2010




a morte do grão de trigo

e lá longe fez-se aqui do lado:
um dia, uma rama, um presente e um presépio.
minha geração é a geração da morte do grão de trigo.



"um pingente, uma magen e ela era tão pungente"


somos todos tudo em todos.
fugimos de nós mesmos.

não sei aquele ou aquela, mas quanto a mim me encontrei a partir de Deus.
e já a solidão não me magoa, a noite avança e o dia é vizinho.


Deus = minha realidade.

Deus é, agora, minha realidade.
melhor, Deus é meu agora.

Deus é meu chão.
sim, eu me firmo no Pai.
conheci meu Pai não por mim (como se em mim houvesse mais visão que nos outros)
mas primeiramente pelo meu irmão, pelo "ouvir falar Dele".

estou me conhecendo a partir de Deus.
"escrevam isso" - eu disse à Cristina - "o que está me dando liberdade diante das neuras e das sequelas traumáticas é minha relação com a realidade pessoal que chamamos "Deus".

pessoal e impessoal ao mesmo tempo (Simone Weil). condição primeira de toda crítica, isto é, fundamento do pessoal e do impessoal.
a verdade, Ele, é a ausência de contradição. a síntese.
não se detém no máximo, se envolve com o mínimo.
ou seja: ama. e ainda outra vez amará.

justamente por ser também o fundamento do pessoal e do impessoal e o logos que a todos envolve estou me conhecendo a partir da realidade "Deus".

estou perdendo um sem número de ilusões a meu respeito. estou me esvaziando de mim mesmo. reconhecendo o nada e o fracasso inerentes ao desejo de ser tudo e triunfante.
sem ir mais longe, Ele mesmo assumiu nossa condição modesta.

o próprio fato de expor essa "magna mater", essa metanóia, como se fosse algo assim como uma serena positividade, isso ainda é efeito do Leonardo pré-Deus.
não, com Deus eu cedo lugar, meu eu é destronado. mais: hipotecado.
e pro meu próprio bem pois não há bem maior que deixar de servir a si mesmo (servindo-se dos outros) para servir aos outros (servindo-se de si mesmo).

- principalmente aos que mais precisam, fazendo companhia aos que não tem companheiros, entre os mais pobres, mais humildes e perdidos -
(a prova de fogo).

os desprezados do mundo são os eleitos de Deus¹. como não poderia ser os meus se agora trabalho para o seu reino? (marujo medroso, mas já pra lá da rebentação)

passei a vida inteira fugindo de mim mesmo. durante 26 anos Leonardo perambulou pelo mundo.
esquizo...como poderia compreender?

ao mesmo tempo há tanta coisa que não sei.
veio, chegou e fiquei ali sem saber o que pensar de tanta coisa acontecida.
é ela.
é a nuvem do não-saber.

"penso onde não sou, sou onde não penso"
(Lacan)
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Dizia Borges que se a atenção do universo se desviasse um só momento dessa mão que escreve (digita) ela cairia no nada como se a fulminasse um fogo sem luz.
como aquele que é tolerado pode não tolerar os outros? a fé esclarecida traz uma "aceitação crítica" de si mesmo. quiçá a base para a aceitação dos outros.
o sentido de se descobrir não pode morrer no narcisismo extremo da auto-afirmação. se descobrir para se descobrir nos outros, para descobrir os outros em si mesmo. essa é a "terra que mana leite e mel" e também nosso acicate.

nesses comenos, eu me boicoto. o velho Leonardo, aquele que ainda se deixa perder nos desejos sem fim da "natureza recôndida", a fragilidade do barro, esse Leonardo atrapalha a relação. tem saudade da solidão, do "estar-sem-Deus", e principalmente, tem MEDO das responsabilidades da relação (a renúncia de si mesmo e o viver em prol dos outros). é, o velho/morto Leonardo² coexiste com o novo/vivo. aquele é exatamente infantil, egoísta e sequelado, este é feito de fora para dentro, é exatamente compreensivo, manso e humano, demasiado humano. é o melhor do velho ficando.
essa vida, essa novidade de vida, não tem fim. o amor é mais forte do que a morte.

esse último é já Cristo em mim, o que, ao invés de anular minha individualidade, (como outros "Cristos" por aí) plenifica sua razão de ser: em prol dos outros.
esta é a verdade do ser humano.

e como ainda estou longe dela...
e como ainda estamos longe dela...

mas o que mesmo o vidente ouviu?
"não temas, sou eu"

o "juízo", o momento de acerto de contas conosco mesmo diante do Amor que nos amou é uma promessa e não uma ameaça.

não necessariamente uma gaita e suas endechas, mas bem mais provável, aláudes e hinos de regozijo.
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hoje tem Cristina
hoje tem Leonardo.
e fala-se de amor.
e ouve-se do amor.
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¹ não fui eu que elegi Deus
foi Ele quem me elegeu
e isso não é nenhuma glória mas o atestado da minha miséria.

² o homem que não se amava.

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antes de entrar na nuvem eu sabia.
sabia porque.
sabia como.



sabia quando.
sabia (até) quem.

a nuvem do não-saber e destes retornos ao pó e tornaram-se em pó todos os fóruns do "meu" saber.
e grande foi a ruína daquela casa.

é a nuvem.

"- Vês?
- vejo os homens mas parecem como árvores que andam".


e a caverna era tão materna..
tão útero.

saudades da inconsciência.
vir á luz
dói.

se pudesse dizer diria que uma mão me tirava. me puxava.
impossível resistir.
fraco.
cego.

cegos, olhos e olhar de sombra não
atinamos com a saída.
já muitos não atinam com o que seja "sair".
seguimos uma luz.
há falsas luzes e são muitos os que descem por elas.

mas há a luz verdadeira. vem envolta na nuvem do não-saber.
são faixas de luz que vão te envolver.
recém-nascido.

sair do útero.
sair da caverna.
saída do labirinto de imagens.
con-versão.

vir à realidade.
vir à mim mesmo - subjetivação.
vir ao mundo - objetivação.
vir à Deus - a síntese, o SER humano.
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tudo o que está escrito acima e tudo o que está escrito abaixo são os registros de um espasmo.
o último.
sinal de parto iminente, a hora é chegada.
a inconsciência sente o puxão.
acusa o golpe.
resiste.

e a caverna era tão materna...
doce líquido amniótico e era tão bom dormir..

estou chegando
há algum tempo ouço vozes.


tem gente lá fora.

tem gente do outro lado da nuvem.


eu estou a criança.
eu estou o trânsfuga.
logo saberei quem sou.

eu não saio por mim mesmo.
apodreço nas sombras se me nego à luz.
preciso de ajuda.

meu corpo resiste mas eu quero re-nascer.
re-nascer não será uma utopia.

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dor
resistia ao parto.

medo.
fugia da realidade.

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sínteses sobre a rocha e a construtividade do escândalo:

humano & primata.
liberdade & natureza.
criação & consumo.

quem conduz quem?
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e eu recalcitrava na minha noite.
infância tardia e a volta dos porques.

muito aquém de Babel, esses labirintos.
muito aquém da puta.
muito aquém da Besta.

não os porques da horrível maravilha mas mas o nascimento de uma de uma gagueira.

nem tanto porque parar de fumar
nem tanto sobre cortar o bek ou não esquecer dos olhos no corpo da fêmea.
ou a gordura saturada, ou (outra vez) aqueles olhos que comiam carne.

mas sim a problemática mais profunda:
porque essa alergia metafísica?
o que significa esse conflito no seio da minha natureza?
esse desquite entre gozo e verdade?

theopneutos: escuta, assim diz o eterno:
"não queira triunfos. fracasse.
não saiba. confie."


a nuvem do não-saber.

e daqueles haveres que o tempo não nos despoja.
in trad: esqueça os porques por um instante, queridíssimo filho meu. confie em mim.
o desejo entorpece. aja. disponha-te ao meu empreendimento.
logo entenderá porque.

a nuvem do não-saber.
______

e um pouco de tempo
depois mais um pouco
e recebi os informes e os "passo-a-passo" do que estava acontecendo.
pois que tão encarecidamente o amei também me esclareceu.
obedeci. suspendi os porques, a nuvem ficou rarefeita e pude ver:

q

o tempo da diplomacia acabou.

ascese
mortificação.

o primata, ele precisa ser...amansado.

eu não sou o meu corpo. eu tenho. eu recebi.
paradoxo
per-sonare: "amá-lo é expulsar-me"
e ainda
"desprezá-lo é cortejar-me".

o "eu sou" não é o corpo quem diz
e nem poderia, ele só diz "eu quero".

máquina de desejar.
eu venho de ser primata, venho a ser humano.
e ainda não se manifestou tudo o que disso se pressupõe.

o indizível do espírito.
esse mesmo que usa a forma primata para dizer em humano e divino (a junção - na kênosis se encontram)

"estou chegando"

rufla em abaixo. seu ponto de pouso é meu fracasso.
a mortificação.

______

isso que aí está parodia meu Pai.
parodia meu irmão e o espírito disso que está aí é, desde sempre, um usurpar imitativo. Babel, Egito e Sodoma.
a última ofensiva.
a danação é uma paródia da salvação.

a essa paródia o gênio de Debord chamou de "Espetáculo".
mas ainda dessas vaidades e aquele papo entre doutos. nada q vá pôr fogo na Terra
há muito que a descida do Verbo veio pôr:

"e como me alegro que já esteja aceso"

toda a fraqueza do ver é o não-ver. o Espetáculo é uma cortina de fumaça. uma paródia da nuvem do não-saber.

isso que aí está já foi julgado.
eu conheci o veredito do Filho, vou anunciar do que ouvi e não falarei uma palavra por minha própria conta.

dei-lhe meu eu.
meu eu não é meu.

quando a mortificação for cumprida vai descer amor em kênosis.
espírito de verdade.
eu sou seu per-sonare.
ser cristão, mesmo, punk
é pura clandestinidade.
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é, a anestesia passou.
o animal, a criança da Terra, o velho
perdem terreno.

kênosis rufla em abaixo.
kênosis rufla em abaixo e eu era tão réprobo.

não a fatura de uma glória irrepreensível mas o atestado da minha miséria.