
amanhãs que cantam
o pensador italiano Vicenzo Vittielo considera o poeta francês Edmond Jabès como um excelente exemplo da experiência hebraica do divino como ausência, experiência que se contrapõe à greco-romana, onde o mundo está sempre cheia de deuses.
(como ainda hoje, mas com um porém: os deuses migraram do ambiente natural para o urbano).
mas o habitat "natural" do Iahweh hebraico é o deserto, é a trilha, é o exílio dos seus, sempre à espera do Messias - sempre futuro, nunca presente e por isso mesmo sempre atual como gestação do porvir. os versos de Jabès, citados por Vittielo, ilustram essa visão da ausência que se revela no auto-abandono dos seus e, por conseguinte, toma como idolatria - esse culto que erra o alvo - toda assimilação do divino a qualquer criatura, qualquer idéia ou propriedade
"ausência, pressentimos/ ausentes, preterimos/ tendo sido nós queridos, os flertes”
mas
o criador é rejeitado pela criação. esplendor do universo /o homem se destrói criando.”
mas
o Filho do homem retoma a relação.
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a educação pela pedra e depois:
o Rio Amarelo - Huang-Ho - uma melancólica meditação feita às suas margens plácidas é ocidental e exílica. O molde do poema é "Babel e Sião", de Camões, redondilha na qual há os famosos versos:
"Sôlobos rios que vão/Por Babilônia, me achei,/Onde sentado chorei/As lembranças de Sião/o quanto nela passei"
"Babel e Sião", por sua vez, inspira-se no Salmo cento e tantos, onde:
"Às margens dos rios de Babilônia nós sentávamos e chorávamos,/ lembrando-nos de Sião./Nos salgueiros que lá havia/pendurávamos as nossas harpas"
o salmo descreve a situação das tribos de Judá, Benjamim e Efraim, que foram conquistadas pelos caldeus e deportadas para a Babilônia. Camões espiritualiza a situação e coloca Babel como o mundo material dos mortais e Sião como a sua verdadeira pátria, que é o Céu, duas maneiras de ser acontecendo.
nesta ordem de idéias, poderíamos dizer em relação à meditação à margem do Rio Amarelo, que, como tudo em um poema, a China e o Rio Amarelo podem ser metáforas, estarem para além de sua posição geográfica, situados num "Oriente ao oriente do oriente", num nascente interior.
aqui no sul, o Tao dos chineses e a Ruah dos Hebreus: o sopro do divino, a anima: os brotos se insinuam nas pontas dos galhos e a tao/ruah vai revestindo outra vez as árvores de seus vestidos verdes, amarelos-ipês, magenta.
aqui em mim, o costume obstrui.
só que cada vez menos, cada vez mais o costume faz água e eu sei que é Ele
soprando