quarta-feira, 25 de agosto de 2010


sessão psicanalítica 119:


Avdótia, eu não sou cristão, eu não sou católico, eu não sou punk, nem situacionista, nada que me paralise nalgum compartimento do costumeiro: eu não posso parar de acontecer.



eu não sou isso ou aquilo, eu sou uma mensagem procurando seu conteúdo. e tem muito dele aqui - Ruah vai nos salvar - de nós mesmos.
eu sou a voz que clama no labirinto: "voltemos a andar" : a verdade do messianismo: quem num labirinto pára, morre.



nessas antecâmaras você é outro eu, nossa única diferença é que, tendo vivido os hebreus, já não me atribuo mais a voz ativa, a eficaz. minha mensagem não é minha mas de quem me faz existir: evidentemente não sou eu mesmo.
de quem me trouxe aqui: evidentemente à essa precisa noite.

e no momento mesmo que da Dabar tento tomar posse - a famigerada derivação do famigerado copyright - eu me arruino, calei-a, matei-nos.
e ela se evadiu. creio que se evadiu, pássaros selvagens que emigravam.

mas se ela me foge eu sou as asas.

ela é Dabar a-outra-história-que-está-em-mim e me chama para junto de si no que restou de mim mesmo, e fixa o fim do brilho dos olhos entre as sombras que se afundam.

Avdotia, eu transfixado. eu não profeta, eu colhedor de sicômoros e de de , esse apelo, esse chamado, ele não quer se substantivar num outro sujeito, (estou aconteçendo Cristo tanto quanto Jesus) ou figura (não o sacerdote mas a oferenda) ou do tempo, da morte ou de forças que ainda não conheço: aconteço no abandono.

morro desde já. um chamado: requiém para a ilusão de ter essência: convoca.

yes, chama. assim como acontece contigo, presumo.


nunc-stans:
http://www.youtube.com/watch?v=Bomv-6CJSfM
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messianismo - tempo que corrói o pseudo-eterno:

outro equívoco, cada vez mais desarticulado, é o fato de se identificar o messianismo com uma démarche escatológica, um suposto fim dos tempois ou da História. ok, haverá ao fim e ao cabo da integração do tempo cronos no kairós messiânico, mas o tempo messiânico não é o tempo do fim, e sim o tempo que dura até o fim, ou seja:
"é um tempo que prepara para o fim".
é um tempo constelação ( passado, presente, futuro), muito semelhante à transcendência extático-horizontal heideggeriana ou à operação Aufgeben em Hegel. um presente decisivo justamente porque, ao sintetizar os tempos, ele exige de nós a decisão ética inapelável, já que o fim se aproxima e, portanto, temos a revogação de todos os poderes temporais, todos os quereres de permanência e...

(oh, já nem digo não-dito mas desdito, ele/Dabar nele começa acontecer o perceber do sentido profundo da queda: tente ver quanto tempo consegues ficar em pé parado)

...e só contamos conosco mesmos, diante do Messias. é um tempo altamente revolucionário, portanto, e não á toa serviu de inspiração a Marx. agora, acho retrocesso tornarmos a substantivar este "processo extático e constelacional" porque aí você reicindiria num sistema, coisa que já não serve mais à nossa démarche epocal.
Se Agamben se presta a ler Paulo como um pensador messianista é porque reconhece que é impossível deixar que séculos de sabedoria judaica se percam ( paulo é associado a Hillel, era discípulo de Gamaliel) só pelo "acaso" do judaísmo ter sido absorvido e convertido numa coisa totalmente outra por intercessão de golpes de força hermenêutica e historiais do cristianismo. O messianismo precisa ser resgatado para nossa época, mas de forma fintita e transitiva, de uma forma epocalmente adequada; só assim ele servirá aos propósitos de uma época finita e trantiviva e finalmente cumprirá ( voltará a )o seu papel: fecundar um futuro e redimir nosso passado.

- brilhante. esse é o raio de Zeus. só discordo numa coisa: eu acontecer/homem posso dizer também, porta-voz de Iahweh Deus corrosivo do pseudo permanente e em nome do processo: "eu sou o fim".
do contrário a voz que me chama continua inumana: impronunciável.