
messianismo
a concepção do messianismo como um acontecer in persona nasce do "acontecimento" Israel. é próprio da vocação (de vocare: chamado) do povo escolhido. Israel sinaliza em si enquanto povo o significado último da errância: a negação de toda finalidade, de toda tendência a pôr um termo, de todo movimento que morre no costumeiro.
o pensamento hebraico, que é um pensamento nascido do nomadismo, indica sempre um "deixar para trás", um presente que encontra seu sentido sempre adiante de si. era natural que os anawins interpretassem essa mentalidade estrutural em seu aspecto mais pragmático: o messias como o libertador do jugo estrangeiro, do establishment que impede Israel de seguir Iahweh, seu guia.
a primeira coisa que Jesus fez aos discípulos foi desiludí-los quanto à essa leitura: no lugar de uma coroa de louros me aguarda uma coroa de espinhos. e o que depois os cristãos fizeram foi criar uma tradição de rejeição à essa interpretação mais imediatista e dar a Deus o que é de Deus: assim como Israel é o messianismo enquanto povo, Jesus é o messianismo enquanto homem. isso não tem nada de essencialismo mas uma aguda percepção da infinita capacidade subversiva da realidade que chamamos, que nomeamos Deus: quando o povo é paralisado pelo costume que quer prescindir de Deus, ela manda seus representantes. seus "filhos" para ilustrar a vocação daquele mesmo povo: seguir, continuar em busca do reino de Deus*, que está sempre próximo/sempre ausente e por isso mesmo sempre acontecendo.
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* e não do homem, que é sempre o reinado de um determinado tipo de homem que marginaliza e antagoniza a riquíssima diversidade de tipos. mas Malkut Iahweh, o reino de Deus, não é de homem nenhum e por isso mesmo é de todos. não se curva a nenhuma Weltanschauung particular, desmascara a pretensão universalista de todas elas e longe de se estabelecer na segurança do consuetudinário aponta para frente para o ainda não vivenciado, para o desconhecido na eterna novidade da vida.
tema para mais adiante.