terça-feira, 17 de agosto de 2010


o Deus dos nômades

a passagem das fórmulas míticas para as histórico-escatológicas é a contribuição do pensamento hebraico para a história universal. malkut Iahweh (reino de Deus) é paradoxalmente o reino do não-estabelecido , é o anti-establishment por excelência, como nem o anarquista mais dadá poderia imaginar.

os antigos javistas preencheram as formas religiosas circundantes, Canaã e Moab, com um conteúdo todo novo, deu-lhes alma nova. em lugar do forte arraigamento aos costumes em todos seus aspectos conservadores, apareceu a consciência nômade de estar no caminho. essa consciência é um elemento de inquietude e do não estar jamais no fim. ao mesmo tempo, no lugar do antigo medo oriental ante o possível irromper do caos no cosmo, surge a certeza de que Iahweh Deus (o Real) está a caminho, incorporando no seu reino tudo aquilo que a ele ainda se opõe.


a religiosidade hebraica é a religiosidade da expectativa, da criatividade e da confiança. religiosidade do caminhar que no deserto vai abandonando os ídolos que legitimam os poderes opressores desse mundo paralisado.
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o pensamento hebraico, o ethos nômade do abandono e da errância, é mais subversivo do que mil manifestos comunistas. nem a Internacional Situacionista nos seus melhores dias foi tão radical.
sim
a crítica a esse mundo que a vivência nômade traz subjacente em sua itinerância faz o grupo Krisis parecer uma Opus Dei.
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o paradoxo é uma forma superior de conhecimento.
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do abandono

os contemporâneos de Jesus não o podem compreender porque não compreendem o caráter necessariamente oblíquo, mentiroso da palavra. porque não compreendem a ameaça constante que pesa sobre a palavra de Jesus, facilmente trasformável, modelável - como em breve acontecerá de fato - em Lei, em comunidade, ecclesia, mundo. porque não compreendem a diferença entre as palavras de Isaías

" verdadeiramente ele tomou nossas dores sobre si, as nossas enfermidades carregou, e pelas suas pisaduras fomos sarados. e nós pensávamos fosse ele um chagado, ferido de Deus e humilhado"

e a repetição dessas palavras.

as palavras da antiga aliança eram profecias de salvação, profecias de redenção do mal em bem. a palavra de Jesus diz, em contrapartida, que nenhuma das desgraças do mundo podem atingir o homem interior. os males e as enfermidades não desaparecem, não são redimidos, continuam a ser isso mesmo - no mundo - porque o mundo não seria o que é sem eles, sem males, sem enfermidades. nem a consciência nem a fé subtraem o homem ao mal do mundo. é justamente no mal do mundo que o divino do homem vive. por essa razão, Jesus, ao convidar à philia universal, recorda que o Pai que está no céu, isto é, num outro modo de ser, "faz nascer o sol sobre os maus e sobre os bons e chover sobre os justos e injustos".
esse é o grito da hora nona: o abandono não é punição, é o Pai se revelando no Filho. eis o paradoxo extremo, a contradição pura: o Pai é assim, só é pai no e pelo abandono do filho, do filho do homem, de todos os filhos, do mundo. tal é a verdade que o escolhido anuncia segundo a única forma possível, a do discurso oblíquo, mentiroso, da parábola que diz "as coisas escondidas desde a origem do mundo" revelando-as.

"aperiam in parabolis os meum"

na mentalidade hebraica, Satanás é a figura de todo establishment profano, paródia do cosmo. é o mundo dos homens, o mundo da exterioridade, da Lei, de todo ethos imperial*. mas a sedução do mundo, a sedução da palavra modelável, modulável, que desdobra na exterioridade da Lei o mistério da interioridade da fé, que arranca o véu que protege, cobrindo o verdadeiro na intimidade profunda da consciência - essa sedução em breve se apoderará também do ensinamento de Cristo.

Auferre velamen, eis a inspiração dos apóstolos que traduziram a Palavra para o mundo helênico. para remover o véu dirigiram-se aos areópagos e desvelaram o Deus absconditus aos gentios, a esses piedosos pagãos que haviam erguido um altar ao deus desconhecido. o cristãos de fala grega reuniram o que cristo dividira: Deus e mundo, interioridade e exterioridade, fé e lei. eles secularizaram a mensagem transformando-a numa formidável força histórica, a mais potente força criadora de história que o mundo já viu. e o fizeram com uma consciência extrema, lucidíssima. tal é a sua grandeza. mas quando Cristo afirma que não veio abolir a lei mas completá-la, é só seguir a sequência dos versículos para se verificar que este complemento foi uma subversão. Jesus completa no sentido em que anuncia a outra metade do universo humano, a única - do ponto de vista da religião - importante, o lado divino do humano, a fé, a metade que é outra, inteiramente outra, das ganz andere, jamais daqui e por isso mesmo quando surge aqui subverte tudo o que é daqui.

mas foi o Cristianismo histórico que triunfou, o cristianismo que fez história, a história do nosso ocidente, e é bom que tenha sido assim. essa tradição se cumpre em Francisco de Assis pelo lado de dentro e em Hegel pelo de fora, aquele que se fez anawin e o cristão-pagão ao mesmo tempo outra vez e clama nessa precisa hora, desse mundo hegelizado de alto a baixo a descida outra vez da subversão encarnada.

"e dos anos ainda por nascer
se recordou Leonardo"


eu sou a parusia
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*É o Egito, é a Babilônia, é Roma e é essa Nova Ordem Mundial que está tomando forma.

na linguagem tipológica, o Faraó, o Rei da Babilônia, o Imperador Romano e o acionista majoritário de multinacional são a mesma pessoa: a personificação do poder opressor. aja ele manifestadamente ou nos bastidores, não importa: isso é Satã: se opõe a Deus, se opõe ao amor e à Justiça.