segunda-feira, 16 de agosto de 2010


o Deus dos nômades - II

os deuses dos povos sedentários são ligados à um lugar e comprometidos com uma situação política e um ethos consuetudinário. Ir à um deus neste contexto significa visitar seu santuário, onde ele habita, e está sentado num trono. aí ele encara os homens como súditos, recebendo seus tributos. aí ele ouve o suplicante, aconselhando-o através através de seus extáticos.


o Deus migrante dos nômades, pelo contrário, não está ligado a nenhum território ou local estabelecido pelo costume. ele acompanha a gente, ele mesmo está presente na caminhada, para onde quer que se dirijam os seus protegidos, ele vai "à frente" guiando-os¹. o nômade não tem a vida determinada pelo ciclo do semear e colher, vive num mundo de migração, de mudança. é o mundo do hoje aqui, amanhã lá, sabendo que os filhos morrerão noutro lugar, longe das sepulturas dos seus pais. no âmbito da transmigração os acontecimentos sinalizam um progredir renunciante, um deixar para trás, um abandonar-se...desse modo a existência é vivenciada como história e não como costume².
assim, o Deus dos errantes leva a um futuro que é o alvo dos eventos ora em marcha. o deserto não é um lugar mas uma condição existencial, a terra prometida é sempre um acontecer que vem. nunca é um acontecer congelado, nunca uma mera repetição e confirmação do presente.
na verdade é o alvo, a utopia, o que dá sentido à marcha e às suas dificuldades. a decisão de hoje confiar neste Deus que conclama, está grávida de futuro. aí temos a essência da promessa, na perspectiva da transmigração.

aqui no nosso solo a sabedoria da errância culmina no lindo mito da "terra sem males" que os índios guaranis oferecem à nossa reflexão.

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1- é por isso que o desejo de "ver" a Deus é contraproducente.
não deves olhar na face de quem te guia, do contrário caminharás em sentido contrário.

2- Jesus disse "eu sou a verdade", e não "eu sou o costume".

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qualquer semelhança do ethos errante com Leonardo é justamente uma CO-incidência no sentido de caminhos que convergem para um preciso agora.
não é por acaso que seja esse Deus que eu vim a chamar de

Pai

de uma família (a humanidade) que

caminha.
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http://www.youtube.com/watch?v=SqdWTeXWvOg