
alter-daguerreóptico
A Lei é separação.
se protege do Numinoso - que é sua anarquia - também castra o homem de transcendência e o impede de deixar que essa anarquia Outra se instaure. a Lei é uma potência negativa, reativa, reativa à violência criativa do Totalmente Outro.
reativa a Deus. faltou pouco para que ele percebesse que Deus é o totalmente Outro desse mundo que aí está ("todo poder emana do homem").
esta verdade/recordação estava reservada para mim. para que não só anunciasse como fosse esse anúncio.
mas continuando:
a acusação de povo reativo por excelência lançada por Nietzsche contra os judeus: os judeus não são, em si, nada, enquanto povo ou cultura. eles apenas reagem, eles se contrapõem a , eles são uma barreira contra. eles apenas resistem (mas isto não seria tudo? não seria no fim um elogio? isto não seria o próprio coração do radicalismo se pensarmos em termos imanentistas, radicalmente históricos, e não somente transcendentes e escatológicos?)
o paradoxo se aloja nas entrelinhas:
a experiência histórica do povo Judeu constitui uma espécie de transcendental do resistente, mas como sobrevivente. algo de perverso, portanto. Nada mais: sempre de menos, sempre o que sobra, o que resta: pedagogia do fracasso: o saldo do fracasso. mas há ainda duas alternativas à trace: povo de testemunhas do mundo antigo, sobreviventes do mundo antigo. Há uma diferença- a Diferença- entre o reativo sobrevivente e o ativo testemunha: o primeiro carrega os signos médico-legais da destruição sofrida: é o que sobrou. Seu corpo é um mapa sintomatológico das feridas inflingidas pelo outro. Ele é a marca da violência do Outro, tão somente, e neste sentido é o seu rastro e, com um considerável grau de extrapolação, seu cúmplice. O escravo vende sua força ao senhor, que o deixa vivo. Ele não o encara; ele se curva e por isso permanece. os judeus nunca se curvaram diante de nenhum homem, fosse ele sub specie aeternitatis o Faraó, Nabucodonosor, Nero - esse mesmo homem nunca subjugou o Judeu, nunca chegou a diluí-lo - os Judeus se curvaram somente ao numinoso, ao Real, a Deus e por isso permaneceram no que Eram.
(sua Lei é a lei de Deus, a Lei do não-homem - no "não matarás", no "não furtarás", no "não mentirás", no "não fornicarás" é enxugada de seu líquido amniótico a verdade do homem, é atravessada pela ironia perfurante de Deus que de pronto a petit poa no mural do tempo: "você mata, você furta, você mente, você fornica. só Eu te faço outro)".
cont...mas de forma geral a testemunha é aquela que se perfila diante do outro, causa de sua dor e, em um mesmo movimento, reflexo de seu ultraje, o encara: um julgamento, um diálogo, tanto faz. A posição é outra, a perspectiva se perspectiva: um ponto de vista, um julgar e ser julgado: o assassino não suporta o olhar da vítima na hora em que a elimina da vida porque neste olhar ele vê o reflexo de sua condenação, e a reversibilidade ( Mesmo, Outro) possível de um face a face.
(um exemplo disso é o embebedamento - o alheamento de si - e portanto do face a face necessário aos guardas nazistas, na hora de cumprir sua "função").
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mais um tópico para as breves epístolas aos utopeus:
quando todos os partidos se unirem em prol do país, as eleições ainda serão necessárias?
a utopia é a virgem...deliciosamente inocente.