quarta-feira, 8 de setembro de 2010


da alteração



Horror do mundo exterior, questionamento das instituições e tradições sociais, religiosas e intelectuais, a profecia não se limita a ser apenas isso e a expor por esta razão o profeta a todo tipo de perseguições e ao sofrimento.






Ela impõe a dor na própria alma do profeta , colocando-se contra ele. Escândalo do mundo, a profecia é igualmente escândalo para o profeta. Esta é seu primeiro adversário, o mais terrível por ser mais íntimo, o mais ameaçador por ser absoluto.
é pela alteração que começa a dor do profeta. Um homem torna-se outro. Ele é arrancado à sua família, a seu meio, suas condições de vida, de mentalidade, a seu temperamento e "jogado" em outro mundo. Ele é subtraído a seu próprio Eu e, transformado, não reconhece mais a si mesmo. Forja-se nele sua própria contradição: ele diz o que jamais havia pensado, ele anuncia o que sempre havia repelido. Sua existência é o paradoxo de seu ser.
(...) a aceitação do Absoluto é a fonte da miséria. fulminado por uma ordem cujas exigências ele não discute nem compreende, Saul está aterrorizado de ver que é preciso submeter-se integralmente, e que arriscar-se a uma leve hesitação, equivale a tudo recusar. Saul participa a uma ordem totalmente outra, que não pode conciliar com a sua. (...) A tragédia de Saul é caso limite. Pois Saul é o único ser eleito por Deus que jamais o encontrou. Ele está encravado na clareira da história feita por Deus, é o elo de uma cadeia de homens da qual deus se serve para falar ao mundo, mas o próprio Saul jamais entendeu a palavra de Deus. (...) Sua profecia é uma ruah sem dabar( linguagem), mas também sem conhecimento. (...) Este distanciamento de Deus torna a mensagem absolutamente misteriosa. Saul apenas pode decifrá-la; e ele jamais a conseguirá decifrar, é o grande fracasso de sua vida.

em Jeremias, contra este homem cuja sensibilidade natural vibra sob todos os acentos do amor, se dirige o outro. Profeta, Jeremias deve condenar tudo o que ama, família, amigos, Jerusalem e seu povo, objeto de sua nostalgia e fervor. O amor se desenraíza dele. Pela vocação profética, Jeremias é arrancado ao amor humano, a toda sensibilidade humana e terrestre de simpatia e afeição. (...) Por onde passe, suscitará a desconfiança e a confusão. (...) Ezequiel é obrigado por Deus a come um frango cozido na merda, e o obedece; Oséias, homem pudico, é ordenado a esposar uma prostituta, para mostrar o quão Jerusalém estava prostituída, e com ela dar origem a uma geração; e o faz. Isaías, homem austero e severo, é obrigado por Deus a marchar nu pela cidade por três anos, e obedece, por amor ao Absoluto.(...) A concepção de profecia que Jeremias julga verdadeira funda sua autenticidade na massa, carga imposta de fora, , de forma alguma buscada, desejada, mas inflingida por Deus.


Andre Neher.