
fallen
o momento em que Eva, a Eva em todos nós, sucumbe ao homem externo - a serpente - é o momento em que nós sucumbimos ao animal.
uma vez e para sempre a escolha é entre o animal em nós ou Deus em nós.
carne e espírito: quem conduz quem?
a queda não é um acontecido, um evento historicamente determinado. antes, é um acontecer, um evento que o javista contempla sub specie aeternitatis.
o conhecimento do bem e do mal (uma maneira hebraica de dizer "todo conhecimento possível") é também todo conhecimento passível ao animal humano. o problema não está na árvore - ou seja, neste homem - mas no seu fruto. porque para organizar, registrar, perpetuar, todo esse conhecimento, ele precisa se sustentar - comer do fruto - do costume: parar: certamente terá que morrer.
é a morte do homem interior. parar.
a derivação posterior da queda ao nível político é a estruturação social de uma sedentarização já ocorrida ao nível do espírito.
fim do nomadismo.
advento do estado.
queda.
enfraquecimento do senso de Deus
a civilização do homem só.
queda.
"L'homme n'est ni ange ni bête,
et le malheur veut que qui veut faire l'ange fait la bête"
(Blaise Pascal)
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mistagogia
"Os fins da filosofia. Os filósofos aspiram a "explicar" o mundo, de forma a que tudo se torne claroe transparente e que a vida não contenha mais nenhum ( ou o menos possível)de misterioso". Não seria necessário antes se empenhar em mostrar que isto mesmo que parece aos homens claro e compreensível é estranhamente enigmáticoe misterioso?Não seria necessário esforçar-nos para nos libertar e libertar os outros do poder dos conceitos, cuja clareza dstrói o mistério? As fontes do ser estão em efeito no que se vela, e não no que está à descoberto"
Emmanuel Levinas
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a sulamita
Meditações eróticas é escrito em um primeiro tempo à margem da problemática ética para sublinhar uma estrutura ontológica que funda a própria ética. Pareceu-nos fecundo apresentarab aobra de Lévinas a partir da problemática do erotismo, que funciona já como um meio dinâmico no conjunto desta filosofia cuja complexidade e riqueza restam ainda a descobrir.
A dualidade erótica do "visível-invisível" não seria talvez estrangeira à dupla referência filosófica na qual se move Lévinas. Certo, o grego que, como o diz Michel Serres, "nos impulsiona em direção á clareza, dela farlando inesgotavelmente até a destruição das coisas", mas também a judia, que conduz à sombra do secreto em retração nas letras carrées do texto bíblico e talmúdico.
O pudor do erótico é também uma maneira de se retirar do Saber; um estado de 'je ne sais quais" metodológico e quase ontológico, pois corolário de uma compreensão do ser em termos de movimento e perfecibilidade. (...) Assim, Lévinas introduz o termo de "caresse", espécie de anti-conceito que abre ao questionamento, modalidade erótica da linguagem, retração do saber, abertura ao próprio futuro"
Marc-Alain Ouaknin - Méditations érotiques