
nos arrecifes
A Aggadah é a in(formal), familiar, doméstica constatação de que a mentalidade hebraica é antes de tudo uma experiência comunitária que vê
(escuta) no diálogo com o Divino um ponto de partida, e não de chegada ( dogma, ou fundamento).
Um patchwork de vivências e leituras, mas também das cesuras e suspensões sem a qual nenhum sentido se cristaliza; cada nuance introduzida no relato oral transmitido às crianças escava e incrusta na superfície da Lei as cicatrizes do tempo, do afeto e da polissemia: um templo alegórico vivo e mutante.
Dabar nos arrecifes.
Estes vaticínios à transparência ( o invisível que aparece na carne, mesmo como significante, como parece ser o caso hebraico) são os verdadeiros desafios à finitude, o desafio que todo homem que se sabe parte ( nem sempre a melhor parte, mas quand même fígado, ou rim) de um cosmo deve se lançar... ou ser lançado a... o homem, consumido e refratado pelo tempo, esta errata pensante de que fala Pascal, é uma reta cindida pela parabólica de uma curva que, insidiosa e redentoramente, se imiscui na trajetória de suas paralelas, hieráticas, decrépitas, sinistras, vácuas... A Eternidade, tal como entendida pela cadeia simbólica do judaísmo ou pela fortaleza maníaco-depressiva, caiada de sado-masoquismo, do catolicismo alexandrino - cada vez mais me convenço disso- é – seria, se fosse- o equivalente da Danação: voyage autour de ma chambre, vertigem do mauvais infini, do cachorro que persegue o próprio rabo, redundante e enervante: apodrecer eterna, inelutável, lenta, gloriosamente, este se sim seria o preço a pagar pelo conhecimento dos limites... um preço demasiado alto para ser tão barato como nós, talvez. Mas a Bolsa de mercadorias e futuros, a mais-valia de Malkut Satan nos salvará desta ronda tautológica , deste eterno retorno-partage do Mesmo, a que nenhuma criatura pode aspirar... nenhuma criatura que renegue o seu Criador-Significado em nome de seus arautos significantes, ao menos...apodreçamos- e “eterneçamos”- sob o sol e a axila do amado, na ascese dos sentidos, como bem nos ensinaram os poetas, estes celebrantes de presenças, que forçam o Logos a entrefechar os olhos e ejacular...... de olhos fechados , aliciados pelo sol e pela brisa dos trópicos da Alteridade, vicejados e violados pela aurora do instante, este estafeta de velhos novos velhos, trans-pósteros, pré-póstumos mundos, corpos, rondas... ser a negação encarnada disso tudo como saída e deserto, comunidade que vem, é a única taça de Eterno a que devo graças. E como dizia aquele andarilho de ser, aquele cara que adorava brincar de Outro, de cirandar de Outro mesmo... (aliás, um verso q eu tenho salpicado aqui e ali, por todo canto -à cata de migalha de acalanto?- ,todo canto, devo estar próximo da Transfiguração ou de enfim acordar às 4 da manhã para SAIR de Onã)...
Elle est retrouvée. quoi? L’Eternité. C’est la mer allée. Avec le soleil.
(Júnior, desviado aqui e ali)
Dabar nos arrefecifes.