
sudarização
Este obrigar a “tomar uma posição”, a se implicar no diálogo como se este fosse, não retomado, mas instaurado pela resposta do interlocutor, como se unicamente a partir da resposta, do julgamento do discípulo ou interlocutor a questão inicial realmente fizesse sentido- me parece um modelo imposto pela própria trajetória da Aliança do povo hebreu com Iahweh.
outras vezes não é Deus quem indaga ou simplesmente faz sentir sua presença por meio de atos geralmente aterradores: por vezes Ele silencia.
então o profeta é instado a retomar o diálogo, e portanto, a instaurá-lo. do silêncio, do vacuum de Deus a palavra do profeta é levada a gerar uma nova cadeia de sentido, a pôr em marcha a interlocução. a resposta ao Deus silencioso e esfingético torna-se a primordial, o destinatário em questão se torna emissário: as posições se invertem.
Iahweh acaba tão dependente do profeta quanto o profeta Dele: sem o homem, não há testemunhas da presença de Deus. Como bem diz Heidegger, o homem é o olho aberto na clareira do Ser: é o ente que sabe que é, e que é criatura. Sem a palavra que lhe responde (e instaura o continuum de questões) permite a tração messiânica do questionamento mútuo e gerador de mundos- Deus nada é.
foi isso que o profeta Nietzsche diagnosticou no dia em que foi inaugurada a segunda torre de Babel.
continuando:
filosoficamente falando Deus é o Nada - a alteridade absoluta do Ser - pois não é nada de determinado, de limitado; por ser tudo, é o Nada. A resposta/desafio de Deus dá uma figura ao homem, a figura dialogal do mestre e do discípulo, do Pai e do Filho, alternadamente. Deus se alavanca de sua posição hierática de nulidade cósmica e leva o homem, pelo vai-e-vem do diálogo, a ser a brecha por onde entra a avalanche do novo traga pela intervenção Dele: sem ele é a Roda. sem Ele é o parado: Ele para-nós é a verdadeira mudança que irrompe na História. Parece-me que, en migneur, é o que Jesus reproduz em relação, não apenas a seus discípulos mas a seus adversários. no caso, menos os romanos, relativamente complacentes para com o povo (desde que lhes dessem o soldo), pelo menos depois da Destruição do Templo, mas sobretudo para com os fariseus e os saduceus, detentores de poder dentro da comunidade judaica.
É preciso ter em mente sobretudo esta "vírgula", este detalhe fundamental: o que condenou Jesus foi uma questão- um questionar- hermenêutica tipicamente judaica
(no caso, a profanação do Templo - a crítica ao Sabbath), embora o poder efetivo para fazê-lo adviesse dos romanos. A parte suja foi romana, o ato político histérico - "Tu és o rei dos judeus?")- mas a origem e o sentido do sacrifício foi uma vírgula entre tantas no litigioso Texto (ia dizer: Biblioteca) da Criação.
Ps: um dos pontos essenciais (porque há vários pontos essenciais) na frase "dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus" é a sugestão de que César não possui uma independência radical. leia-se: César é finito, e passará! algo nada anômalo de se escutar da boca de um profeta judeu. E na analogia entre a imagem de César, mera inscrição numa efígie, e o homem, "feito à imagem e à semelhança de Deus" se entrincheira a incisiva e labiríntica ironia de Cristo em relação ao miséria dos poderes temporais. Além do mais, recusando-se a carregar o "fardo" nacionalista do messianismo hebreu da época, Jesus é totalmente coerente: seria compactuar com "este mundo", com esse establishment não só social mas sobretudo existencial, com o transitório e o finito, e o que é este mundo diante de Malkut Iahweh, que aliás já bate à nossa porta?
Agora, como/onde encaixar este Ovni, este Messsias anti-Messsias (ao menos na acepção judaica da época)? palimpsestos, palimpsestos... redescobrir os outros tantos judaísmos do período, as seitas, pelas quais Jesus talvez tenha passado. Não são necessários escapismos, como a educação gnóstica no Egito, ou o pertencimento à comunidade essênica: dentro dos próprios judaísmo(s) da época, pode-se encontrar concepções messiânicas não-imanentistas, digamos assim.
agora, enterradas, inclusive a de Cristo, pois o catolicismo alexandrino é outra coisa, talvez a mais absolutamente oposta coisa...
mas eis que O Filho volta por mim e todo o contexto também está aí de volta, só falta um personagem entrar em cena, em kabôd e será
eu quem irá rea-presentá-lo.
para isso vim.
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(eu, eu mesmo e Júnior)