
Deus interpretado
será que este evento sem paralelos foi realmente compreendido?
será que ainda lembram que o povo Hebreu era infinitamente expressivo?
imagine um povo de atores.
pois Jesus foi o ápice: ele interpretou IAHWEH SALVA.
em "Donnie Brasco" Jhonny Deep faz o infiltrado par excellence.
Jesus "infiltra" Deus no mundo
no grande palco da vida ele representou Deus para nós.
não um baile de máscaras mas uma expressão da realidade: uma imaginação tão funcional que pôde dar a Deus um rosto humano.
ele emprestou sua fala a Deus, se deu por inteiro, ele deu a alma, deu o sangue, ele viveu Deus
até o fim.
ele foi o ator mais singular que jamais existiu e Deus foi seu papel
e abriu-se o precedente, e Deus continuará a ser representado
onde quer que brilhem olhos como os seus.
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Humilitas - parte II
Jesus
"Antes da festa da páscoa
sabendo Jesus que era chegada a sua hora
de passar deste mundo para o Pai
tendo amado os seus que estavam no mundo
amou-os até o fim" (João - 13.1)
há um limite para a convivência das expectativas da multidão com a linguagem lúdica de um sonhador. pode se manter muita gente por perto, bastante tempo, contando estórias. respondendo com novas e escorregadias perguntas, distraindo com meias palavras, usando as mesmas figuras para indicar outras imagens.
o reino de Deus, i.é, a civilização do amor, sempre próxima.
"abrirei minha boca em parábolas".
fermento para o bolo. um grão de mostarda. a luz no candeeiro. o sal.
um casamento surpreendente. outra coisa com as mesmas palavras.
parábolas que postergam os julgamentos, que iludem a ilusão (Kierkegaard).
mas há um ponto de fervura em toda esperança adiada.
um prazo estreito para o encantamento popular, quando a violência adormecida de todos acorda. parece que é o que está acontecendo. ninguém pede mais sinais. nenhuma nova pergunta é feita e sequer mais uma estória é tolerada. antes Deus era cercado por demandas, agora é rodeado por suspeitas.
se o apetite por poder não é saciado, aquele que a todos distraiu, de quem nunca se deixou de esperar a mais vulgar e velada satisfação, deve ser consumido nas aspirações desapontadas da turba. Se Jesus não é o salvador que se reivindica, que se vá e a nós venha Barrabás: Nietzschetes e Marxistas herdam essa aclamação.
um ídolo não tem o direito de não ser o que se espera dele.
não dá para não trair alguém que tinha tudo para ser o que todos esperavam. não dá para não repudiar aquele que frustou as mais doces fantasias. não dá para não condenar aquele que não consentiu com mais uma ilusão.
um ídolo não tem o direito de se mover.
todo líder é constituído em um jogo erótico. e toda intriga é uma pornografia. ninguém toca no assunto, mas todos esperam secretamente que ele seja o que ninguém consegue ser. este é o segredo que excita os ajuntamentos. mas, se alguém acende a luz e frustra o fetiche coletivo, retomam-se as sombras, agora para destruir. odeia-se quem não se deixou amar com máscara. este é o segredo que perpetua as taras para os próximos ajuntamentos.
isto matará Jesus.
por isso o insinuante beijo de Judas virá. estalará como um tapa, cheio de um estranho sadismo. a primeira e mais ardida bofetada que o Filho do homem terá recebido.
as palavras de Jesus estão gastas. o prazo se esgotou. tudo o que diz, desde então nada fala. as multidões atraídas por ele, agora o repelem. resta o lugar de poucos, o espaço dos amigos.
quem sabe? Jesus se faz anfitrião e põe a mesa. oferece pão, ainda que ninguém aparente chegar à saciedade. enche as taças, que insistem em parecer vazias. Cheios estão os corações, mas de mal-entendidos. sente-se sozinho também em casa.
o limite das palavras é um convite para os gestos de amor.
as palavras, amordaçadas, descobrem que o amor se expressa a despeito delas. silenciosamente, Jesus encena o último sermão antes de ser condenando a morte. despe-se da capa para ocupar o lugar discretíssimo do servo. o mestre lava os pés dos discípulos. as mãos de um Deus calado conversam com os pés trôpegos da humanidade.
nunca se olhou tanto para baixo como no dia em que Deus ficou de cócoras. quem quisesse olhar para o céu a procura de Deus teria que vê-lo refletido nas águas turvas da bacia sobre o chão.
e logo um coração acelera sem parar porque está vendo o Real dizer: por ti, criação minha, me prosto.
por um instante, vendo-o prostrado, esse coração atingido em cheio se lembrou do que ouvira do próprio Jesus: que um espírito da facilidade, um diabo, em um deserto, tentou fazê-lo se prostrar por poder e fama e ele recusou. assustado, chegou a pensar: não se prostrou diante da fama para ser ouvido, mas se curvou diante de pessoas para amar… e teve medo do futuro. do que teria que fazer com todos os seus planos de grandeza.
e a interpretação de Deus na vida, na carne, acabou na sua total recusa pelos homens, recusa em forma de Cruz.
mas a cortina ao invés de fechada, rasgou de alto a baixo deixando esse palco sempre aberto à uma nova
interpretação
mas a morte não deu a última palavra, deixando Jesus aberto à um
novo homem.
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sobre o celibato
o Padre é (ou deveria ser) o representante de Deus.
ele re-apresenta Deus. no palco da vida o Padre interpreta (!) Deus.
sujeito de uma representação transcendental: ele é Deus para nós como Don Marlon Brando Corleone foi o mafioso para nós.
tudo bem, nem tudo mundo pode ser Marlon Brando, mas espera-se que pelo menos entenda um pouco da
cosa nostra.
mas quando a imprensa imprensa a Igreja na parede em relação ao celibato todos apontam para Jesus e citam o "eunuco pelos reinos dos céus" de bate-pronto.
"tá, mas e daí? o que isto quer dizer?"
pelo que vejo teremos que esperar até que o Filho do homem seja con-sagrado para que entendam que o padre é, em tese, o representante de Deus no mundo.
ora, Deus não casa e muito menos transa com sua própria criatura (não, Maria foi mãe solteira, i.é, totalmente "sombra" de Deus).
o deus que transa é Zeus.
isso é grego.