
pleito
Buda da redenção.
chego atrasado. encontro Dilma e Serra já sentados na escadinha, longe um do outro. não vejo sinal da Marina.
sento entre eles, peço desculpas pela demora, ofereço balas de café.
ambos aceitam com uma mesura.
pego o bloco de anotações e a caneta, começo a entrevista.
o tempo está nublado.
termino a entrevista.
começamos a conversar de verdade.
Dilma diz que nunca achou que um dia fosse falar de antepassados Búlgaros, muito menos de refeições servidas à francesa (risadas)
"onde você achou isso?"
digo que foi na Wikipédia, a mãe dos burros.
"tudo bem, essa é isenta" (risos)
Serra confessa que há muito tempo não falava tanto de sua primeira casa.
em seguida volta a lembrar do pai, fala como só um filho pode falar e sua voz muda. Dilma abaixa a cabeça.
o sol volta ao parque.
o anjo da nostalgia está realmente sendo invocado, o papo deriva para a juventude.
é um tempo que os reconhece como pares e por um instante parece que a animação está chegando e eles vão se olhar diferente.
mas é em vão
o presente é por demais des-animador.
a interpretação "os inimigos" se impõe.
ofereço mais balas de café.
é agora ou nunca
- I have a dream.
= hmm...?
- ver o PT e o PSDB unidos em prol do povo.
= !?
- porque não? ambos não querem o melhor para o Brasil? porque não se unem então?
= impraticável. nossas plataformas são opostas.
- não é o que parece. os pontos essenciais são os mesmos: saúde, educação, moradia, etc. onde está a oposição?
= ...
- Dilma, se as diferenças fossem deixadas de lado você aceitaria o Serra como aliado?
- Léo, é impossível deixar as diferenças de lado porque elas refletem as diferenças reais que dividem a nossa sociedade entre os que tem demais e os que tem pouco ou nada tem.
- de que lado você está?
- dos últimos. mas eu preciso negociar com os primeiros, senão nada feito.
- mas aí você acende uma vela pra Deus e outra pro diabo..
- ...
- e você Serra, de que lado está?
- (voz presa) não vou ficar aqui sendo empurrado contra a parede.
e saiu aborrecido.
tinha tudo para ser um homem memorável...
só então a Marina se aproximou, e com ela o Plínio, o Fidélis, o Zé maria (meio a contragosto) e o Rui.
embora agora as diferenças ainda fossem consideráveis já não podiam mais tornar a união "impraticável".
a origem os unia.
a origem sempre une.
hoje é o dia número 4.
esta é a primeira das Cartas aos utopeus.