
a tragédia
a crise do mundo é a crise do paradigma grego.
é a crise da mentalidade grega.
é a crise do seu mundo.
mundo que subordinou a mentalidade hebraica aos seus interesses.
ao renascer das cinzas medievais ela prontamente deu início à encenação de sua derradeira tragédia em três atos:
o mundo como objeto
o homem separado
Deus enquanto idéia.
e assim como cada ato tem relacão com os outros, assim também os termos acima se inter-relacionam podendo produzir várias combinações igualmente
trágicas.
descrevendo:
uma das maiores dificuldades que encontramos na interpretação do nosso tempo é a ignorância sobre as discrepâncias entre as mentalidades grega e hebraica, que estão em sua base.
o Antigo Testamento e também o Novo são expressões da mente hebraica.
pouco da linguagem do NT é influenciado pelo helenismo.
a diferença básica entre as duas modalidades é que a mente hebraica é interpretativa e a grega é analítica.
para a mente grega a palavra e a razão coincidem. "Logos" pode significar palavra ou razão. portanto quando o filósofo grego fala da verdade ele se refere à verdade das proposições ou declarações. ele negava haver uma verdade in loco no universo e nos seres. a verdade era para eles ideal e nunca ontológica. tanto assim que Aristóteles estabeleceu que as diferenças entre uma coisa e uma pessoa eram inteiramente irrelevantes para o problema da verdade.
mas isso depois que PLATÃO já tinha completado a dissociação entre coisas e idéias.
e ao fazer isto ele destruiu a verdade.
sua filosofia ratificou a destruição da verdade ontológica.
dá-se exatamente o oposto na mentalidade hebraica. os hebreus não consideravam a verdade como algo separado de nós. a verdade era interpretada como um modo do homem acontecer. quando a vocação do homem e sua situação Real coincidem então a verdade acontece.
os hebreus eram apaixonados pelo Real, eles o chamavam de Iahweh, o Senhor.
os gregos nunca estavam interessados no mundo real, como tal. seu interesse na vida era confinado à sua própria felicidade, a arte de viver ou "técnica da vida".
um impulso subjetivo dominava toda a sua pesquisa da verdade.
é esse estado de coisas que impera no mundo moderno. embora se faça muita questão da verdade objetiva ela está subordinada à interesses rasos como poça de chuva. seu alvo é o conhecimento perfeito dos fatos objetivos para propósitos subjetivos: egoístas.
o inteiramente oposto se dá com os hebreus para quem o elemento subjetivo na pesquisa da verdade era relegado a um lugar secundário porque eles não consideravam razões subjetivas como fonte de verdade, mas antes, partiam do fato de que eles e seu mundo tinham sido criados por Deus, pelo Real, e que Deus tinha um propósito com este universo e era seu supremo legislador.
a questão para os hebreus não era: quais são os elementos gerais deste mundo?
mas antes: como é que este mundo se relaciona com a vontade de Deus?
(lembrando sempre que "Deus" é o NOME que a mentalidade hebraica dá ao Real.
é o primeiro détournement que se tem notícia)
cont..
quanto mais remoto é um objeto da experiência diária, tanto mais fortemente sente o hebreu a necessidade de fazê-lo real a si mesmo e aos outros, por meio da interpretação descritiva. é esta a razão porque na literatura hebraica há tantas imagens e comparações. as imagens são consideradas necessárias para dar-se uma descrição apropriada das realidades que não podem ser descritas de outra forma.
("abrirei minha boca em parábolas").
o processo histórico como registrado na Bíblia é história da redenção humana de suas próprias trevas, distinta do resto da história dos homens, i.é, da história do poder. é a fim de fazer inteira justiça ao caráter REAL de seu processo histórico que as imagens são usadas. se termos puramente abstratos fossem usados para qualificar Deus, Ele seria colocado no mesmo nível que outros objetos de nossa mente. as imagens (Senhor, Pai) têm a finalidade de ajudar nossa interpretação, nosso atuar na relação com Ele. pela mesma razão, expressões míticas são tomadas emprestadas de outras religiões; mas na Bíblia, elas imediatamente perdem o significado mítico e passam para a categoria da sabedoria.
se os gregos amaram a sabedoria, amor platônico, os hebreus fizeram amor com ela, amor Real.
eles também levaram a cabo um trabalho sistemático de desmitologização sem precedentes no mundo oriental. os autores bíblicos dominavam o desvio como poucos.
nada contra a mentalidade grega, desde que ela saiba seu lugar e não queira se arrogar de detentora - e logo, controladora - da verdade sobre o Real.
sobre Deus.
desde que pare de bancar o Édipo.