quinta-feira, 14 de outubro de 2010


Étoile de la vie (ensemble)

o fim do nunca iniciado. o filho natimorto.
o breve brilho da efeméride.

se as condições para a re-interpretação da redenção estão vindo nessa direção, se a consciência desta vinda é um efeito da hora que se aproxima

então tudo, ponto por ponto (ah, Efraim...), pode ser re-interpretado.



toda a tipologia da redenção outra vez se faz
carne.

e na re-interpretação há também lugar - central - para
Miriã de Magdala.

"conheci" Miriã no carnaval de Veneza:

ela: "Perfil Debord: o desafio aqui é imaginar como Debord definiria a si mesmo".
(subentendido: se tivesse perfil no orkut...)

e o palerma aqui respondeu: "Debord nunca iria se auto-estereotiopar".

e ela: "então, 'queridíssimo' Leonardo: nego-me a ser definido por imbecis que pensam saber algo sobre qualquer coisa"

terminado aquele passo eu deixei as damas vestidas de tafetá, brocados e bocados, e me aproximei dela. durante 5 anos fiz de tudo para ver o rosto por debaixo da máscara. só agora depois do último Não, dessa vez dito assim mesmo, sem aspas, que eu fui entender:

se o rosto é uma máscara de carne.
se é volúvel à chegada do personagem que o momento "chama"
então
eu devia ter lhe oferecido outra máscara desde o princípio!
o baile não pode parar. o faz-de-conta não pode morrer.

não há como alguém interpretar a si mesmo.

"em todos os seus filmes o ator Rodolfo Valentino interpretou o ator Rodolfo Valentino"
absurdo...

a máscara é necessária.
sem ela não há baile, acabou a magia e as damas vestidas de tafetá tomam conta.
a noite esfriou e é chegado o baile da morte rubra.

eu deveria ter oferecido outra máscara. mas eu não tinha nenhuma além de Alice (a esposa de Debord) e isso - o inconsciente dela não deixou de perceber - a matava.
a tirava do baile.

mas agora "eu" fui encontrado pelo anfitrião. o tempo todo ficou ele lá da mais alta sacada, observando minhas tentativas frustadas. até descer e me dizer

"ofereça-lhe outra máscara"

eu não sabia que era assim. a minha máscara era inapropriada.
era por demais comum. outros a usavam muito melhor do que eu.

mas agora o anfitrião me presenteou com uma máscara feita especialmente para mim.
e outra especialmente feita para ela.

nós vamos começar a última dança do baile.
é o fim e nós fomos escolhidos pelo anfitrião para o encerramento. é a nossa hora.

mas falta dizer isto para ela.

"não posso combinar certos passos que a divina bailarina não tenha previsto"


como me aproximar?
eu me debatia na minha tosca apresentação, não convencia.
então depois de ouvir o último Não eu desisti de tentar por mim mesmo e pedi o auxílio do anfitrião

como falar com ela?

e era um ser feito do mais puro amor e no paroxismo da apoteose ele me respondeu :)

- deixe que eu fale.


(para Étoile)

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Requiém

acabou.
cai o pano.

nos velhos tempos seria só mais uma deixa pra rastejar atrás dela implorando atenção, migalhas de sensibilidade, sujeição em fonte 8
na razão de 300 e-e-e-e-e-mails por dia, sem parar, compulsivamente, desesperadamente
rastejante.

chega.
se há um sentido nisto tudo (porque a dor é verdadeira) ele virá a seu tempo.
mas eu não vou mais interpretar o papel do apaixonado rastejante.
chega.

saio disso bem mais pragmático.
aprendi isso com ela.

está doendo horrores mas dessa vez vou deixar doer até queimar.
e queimar até as cinzas.

acabou.
agora eu quero esquecer.
__

a morte do teatro do divino

quarta à tarde, campus do vale - instituto de filosofia
aula de teoria do conhecimento.
o professor passa São Tomás. fala do ato puro, de anjos, de Deus.
me dá vontade de gritar
"isto é uma impostura!"

melhor ficar quieto. um dia...

mas o que os herdeiros do pensamento grego fizeram com as maravilhas hebraicas foi um crime.
eles mataram o teatro do divino.

o Deus dos filósofos é Zeus racionalizado.

já o Deus hebreu é infinitamente mais vivo.
pode ser experienciado pela interpretação.
Ele é o amor, toda vez que o amor é vivido, "interpretado", Iahweh está sendo manifestado: apresentado. Deus pode ser visto toda vez que o amor ganha um rosto humano.

idem os anjos: o espírito é o personagem!
a constestação dos poderes desumanizadores (Miguel), anunciação de novos tempos (Gabriel) ou a cura de situações doentias (Rafael): anjos são papéis.
existem para ser interpretados.

ou seja, não existe separação. isto é platônico, não é hebraico.

porque ontologicamente falando nós não existimos.
só existimos quando interpretamos um papel: o baile não pode parar.
morrer é perder a capacidade de interpretar o outro, o diferente.
sem personagem o ator está em stand-by, e um ator desempregado "morreu".

sem o espírito, morremos.

o pensamento grego, do modo como é (im)posto se torna a morte do teatro do divino.
por querer conhecer o bem e o mal (um modo de dizer "tudo") o homem morre.
pára de interpretar, está ocupado demais para expressar a beleza do real.

não estou interessado no que o Deus é, eu quero viver Deus.
aí então, o conhecerei

de dentro
na carne.