sexta-feira, 15 de outubro de 2010


carta aos utopeus

para o próximo mundo
para os que farão a curva da estrada

este mundo aprendeu a contar os dias em cidades medievais, onde o tempo era marcado pelo ritmo das feiras.

primeira feira, segunda feira, terça feira...
é o tempo do feirante
a vida é comprar, a vida é consumir



o capitalismo é medieval.
é o mundo dos mercadores da urbe
é deles a espada de pano
quem disse que a idade média acabou?


eu só sei de uma coisa
meu mundo não é este, meu mundo é o outro mundo
possível
meu reino não é deste mundo, neste mundo meu reino é
impossível

sejamos realistas, peçamos o impossível.

a estirpe dos utopeus, o que restou da esquerda
vivemos em terra estranha, nosso mundo não é este, aqui somos exilados

peregrinos em terra estrangeira
almas nômades
até o fim

andarilhos.

pois bem, e como será a semana do outro mundo possível?

o Filho do homem tem uma sugestão: como alternativa a uma sequência ordinal dos dias, como é hoje, onde o quantitativo delimita o sentido acumulativo do tempo, podemos observar uma experiência histórica singular onde os dias tinham uma conotação qualitativa, cardinal

a singularidade:

imagine que todos os países fossem capitalistas e só Cuba fosse comunista.
isolada. reativa. virgem.
Cuba seria a singularidade. a excessão absoluta. o não-dito do mundo. a diferença.
o antigo Israel foi a singularidade da antiguidade. o diferente. o não-dito do mundo antigo.
todos os povos eram politeístas, as cosmogonias mitológicas eram a base legitimadora do costume e das estruturas políticas.
Israel foi a Cuba da antiguidade (literalmente mesmo: estava cercada de potências por todos os lados; o Israel antigo era uma...Palestina!)
pois neste Israel aconteceu uma cultura inteiramente diferente de todas as outras. a história (a mudança) ao invés do mito, o único Deus, O REAL, ao invés das multidões de deuses lendários.
sua escatologia era altamente política: é necessário que o outro mundo, a terra prometida, aconteça aqui.

mas o que interessa no momento (porque há infinitas possibilidades em Israel e Cuba) é a noção de tempo dos Hebreus:

dia um - dia da luz
dia dois - dia das águas
dia três - dia das árvores
dia quatro - dia dos astros
dia cinco - dia dos animais
dia seis - dia dos homens
dia sete - dia do repouso

cada dia celebra um momento da criação, cada dia celebra um evento único e pode servir de base para a infinita criatividade humana celebrar em cada dia um aspecto da vida em comunidade correlacinado aos eventos.
e cada festa "temática" - cantar a beleza da vida - se repete uma vez a sete dias.
(ao contrário da rotina psicótica deste mundo)
assim, cada dia é único como é único seu "leitmotiv".
o dia adquire assim um sentido inteiramente qualitativo
é celebração, é o que Debord belamente chamou de
"dispêndio luxuoso da vida"

podemos viver assim e não como bestas feirantes.
eu não acredito em fim da história nem em estórias do fim
eu acredito em outros mundos possíveis

e impossíveis.

porque para quem ama nada é impossível, Israelitas e Cubanos amaram o Real e foram plenamente correspondidos.

eles acreditaram

a esperança é a última que morre e mesmo assim
certamente

ressuscita.

__

Sessão 119
leitmotiv: Étoile

- cansei, Avdótia, cansei. não vou ficar indo atrás nunca mais.
ela não se interessa por mim, a verdade é essa. eu que não queria ver.
- e porque, você acha?
- porque eu não acrescento nada pra ela!
- e pra quem você acha que acrescenta?
- ...


aquele "Não" continua ecoando na minha cabeça
tirou todo meu ânimo.
acabou mesmo, Avdótia
"cumpriu-se": não era pra ser.