segunda-feira, 11 de outubro de 2010


o dom das lágrimas


o que daria o homem pelo prazer?
R= sua liberdade.

se o chamado que você ouve é deste mundo, nada do que for dito aqui vai fazer sentido para ti. o prazer continuará sendo tua saída sem saída, o gozo que pede mais gozo seguirá sendo teu dono, a auto-antropofagia tua marquesa de Sade, o homem que come a si mesmo teu

destino.

a vida do homem não está com ele.
o que daria então o homem por sua vida?
R= sua liberdade.




mas se você está sendo chamado pelo Real em pessoa, se a presençaAusente afixa as presilhas do divino na tua alma, mas se é Deus quem te vira pelo avesso e te veste de paradoxo, e arlequim do grande Joker, você lambuza de contradição a lógica desse mundo, então você mesmo é já palavra, está sendo dito

"eu não sou meu".

mas diz isso não através da assinatura da tua carteira, e sim pela adesão incondicional à Deus, sem interesses na ribalta, sem barganha subjacente,
sem salário

mas por puro amor, pura entrega, por pura e livre auto-doação: é um casamento.

para que ele desça você tem que dar passagem.

a paródia da morte permite entender isso muito bem: o capitalista também exige auto-negação e entrega total.
também exige dedicação.

contudo mesmo estando lá, sua presença não pertence, e o vivo em surdina diz "Não".
sente que sua "firma" é o divino e empresa nenhuma deste mundo lhe atrai.
seu chefe é Iahweh Deus e à patrão nenhum servirá.
não se nega pelo real morto desse mundo mas pelo Real vivo: por Deus.

para que ele desça você tem que dar passagem.

morrer para esse mundo. morrer para a modernidade.
por isso os que negam o capitalismo estão mais perto da civilização do amor
mas precisam ir até o fim: voltar às origens: o nomadismo. agora, interior.

para que ele venha é preciso que você se vá


por "você", entenda-se "você até hoje".
você até aqui.
tudo que você entende por ti mesmo(a)
tudo o que você sente por ti ,,
tudo o que você planeja para ti ,,

subverta este mundo: faça tudo o que ele pede mas não faça para ele.

faça para Deus.
i.e, faça pelos outros

nunca só por ti.
o indivíduo auto-centrado é a morte do sujeito.
acabou-se a abertura para o outro, o outro é um concorrente.

esqueça-se.
abra-se para o mundo, para os outros
seja uma abertura
seja ouvidos

porque este mundo te fecha. tatua uma suástica na tua alma.
e faz isto porque este mundo, o capitalismo, é o arquiinimigo de Deus.
é arquiinimigo do anarco-comunismo, este outro mundo possível.
i.é, do reino de Deus, i.é, da civilização do amor.
porque o reino de Deus não é deste mundo. é o outro mundo possível, aqui.

quer ser inimigo deste mundo? quer negar a negação?
começe por você.
subverta-se


arrependa-se.


deixe que o contato com o Inteiramente Outro te faça inteiramente outro.
se negue.

esse mundo exige que você se afirme. (o canalha é aquele que sempre se justifica).
exemplo: entrevistas de emprego. confecção de currículos.

subversão: concentre-se nos seus defeitos. é por eles que Deus começa a te fazer outra pessoa.
se negue.

esse mundo te prende pelo prazer.
pelo luxo do gozo, pelo gozo do luxo.
subversão: vote na simplicidade. eleja o frugal.

este mundo seduz com vislumbres de riqueza?
queira ser pobre.
a pobreza é a privação do supérfluo.
consuma só o necessário.

a verdade e a vida estão na antípoda deste mundo.
na sua subversão absoluta.

pois bem, e o dom das lágrimas?
as instâncias do sublime

o sinal característico desse mundo, pelo qual os seus adeptos podem ser reconhecidos imediatamente, é o orgulho.
a arrogância.
a prepotância.

subversão: seja humilde.
reconheça seus limites.
admita sua pobreza existencial.
recite a humilitas

arrependa-se.

então vem o dom das lágrimas e é chegado o dom das lágrimas.
um dia sentiu o agudo amor de Deus e era chegado o dom das lágrimas.

negar a si mesmo é terrível. o Eu resiste, o corpo rosna.
isso gera ira. a não-aceitação, no fundo da caverna os demônios começam a bater suas asas de morcego: olhos semi-cerrados e já sabem da luz que vem.

a ira que atira para todos os lados.
transcenda a ira. ela quer sangue.
esfrie-se, acalme a tempestade.

mas não recorra ao paliativo do gozo!

o gozo é impotente.

chore.

sublime a pulsão pela mais sublime ex-pulsão: a lágrima.

chore.

ative teu senso da Ausência presença de Deus
e chore.

vá por mim.

nesse momento ele intervém.

como toda Mãe
como todo Pai

chame o amor

chore.
___

detrás da malhada.

antes que você saísse do ventre de tua mãe eu já te escolhia e te destinava meu mensageiro às nações.
não foi você quem escolheu nascer nas montanhas, crescer nos montes e falar a língua portuguesa. você não quis e nem planejou as tuas nove transmigrações.

foi eu.

você sempre foi guiado por intuições: sempre pisou minha sombra.
vinte e duas migrações e eu já te preparava para ser meu representante.
eu te escolhi estando você ainda no que eu imaginava.
eu te separei para mim estando você ainda sujo do sangue de tua mãe.

eu te tirei detrás da malhada.

quero que você me represente.
eu serei teu pai e você será meu filho
você puxou meus traços
ainda estão turvos

estou te delineando
mais um pouco e te porei de pé

não por ti
não por mim

mas por eles.

pela civilização do amor.

__

¹ quando ele chora, volta a ser como as águas originais oferecidas ao sopro do espírito.