
Jerusatenas
a ninfa e o homem-mundo.
Leonardo:
= li todo seu blog. seu interesse no evento hebraico ainda é curiosidade de turista.
são instantâneos de uma visita. longe de ti vir morar nesse lugar.
os parapeitos do terrível e (e, porque não?, do patético, do elegíaco, do sarcástico) encarar o completamente Outro de ti mesmo lhe dá cãibras de gesso; é preciso uma dose cavalar de horror pelo mundo externo para mergulhar de cabeça neste buraco de Alice. mas te digo que se quiser ir mais longe - todo seu desejo subway - precisa acontecer (deixar acontecer) o Hebreu que dorme em ti.
ele/eu fez/fiz isso em nós/mim e já vem Dabar a este mundo DO fim.
eu sei o que te impede de deixar o Hebreu em ti passar...
é o grego.
(isto = fala)
Júnior:
- pode ser, Leonardo, pode ser. mas é uma coisa que tenho clara para mim: sou mias interessado no período intertestamentário, nas colisões e confluências que posso detectar entre cristianismo e judaísmos do que exatamente em me aprofundar na cultura e religião judaicas, noção bem complexa para um povo que a rigor nunca foi povo, uma identidade que nunca foi identitária, e a crença num Deus que a rigor sempre me pareceu igualnente suspeita, um Deus ausente Presente ou uma Presença ausente, e cujo rastro da contração é definido pelas interpretações do texto.
meu blog é como o teu, tende a ser mais um collage do que uma Summa. é bem como o teu, um mosaico, algo mais numa linha de associações e constelações, nada exaustivamente desenvolvido ou fundamentalista
( para mim ambas as coisas apontam para uma única tendência.
Logo, voltarei a escrever por aqui, li um livro sobre Judas do Grimaldi que me tá levando a ligar cada vez mais o profeta Jesus e o apóstolo Paulo ao protestante Kierkegaard.
Leonardo:
= falou. lendo o que vc respondeu me lembrei de uma coisa: nenhum hermeneuta pode dominar o pensamento hebraico se antes não dominar a lógica do paradoxo.
Júnior:
- é por aí. um pensamento finito, dialogal no tempo (a Berit é a História deste diálogo, deste contrato impossível entre uma comunidade finita e a Pessoa infinita, impossível porque todo contrato pressupõe direitos e deveres iguais, uma equanimidade de condições), necessariamente é um pensar que abriga o paradoxo (ou é abrigado por ele), uma forma de pensar movediça, maleável, ricocheteante, ubíqua, extática, um modelo de pensar muito atento e semelhante em sua figura (Bild) aos ondulantes sintagmas do tempo.
Leonardo:
"""ondulantes sintagmas do tempo...
cara, isso me fascina até à esquizofrenia.
ah, te sugiro conferir "A religião de Israel" do Hebraísta Yehezkel Kaufmann.
muito foda esse livro.
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e por falar em Kaufmann:
ele parte da constatação de que o Israel pré-exílio é a absoluta singularidade sócio-religiosa da antiguidade. ELES NÃO TINHAM A MENOR IDÉIA DO QUE ERA O POLITEÍSMO. para eles os deuses "das nações" eram só "pedra e madeira", i.é, eles desconheciam completamente as mitologias ordenadoras dos povos circundantes. isso só se explica pelo extremo isolamento Hebreu. mostra o abismo que separa sua concepção do divino de todas as outras. reativos até a medula, eles desenvolveram (ou, do ponto de vista de Iahweh, receberam) uma religiosidade inteiramente Outra, não-mitológica, histórica, auto-subversiva. o antigo Israel foi um povo Ovni, um povo alter, um
povo-paradoxo.
cont...
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2022
- você é judeu?
= não
- cristão?
= não
- ateu?
= não tenho tanta fé assim
- mas então, diga logo de que religião és tu, para que demos uma resposta aos que nos mandaram aqui.
= de nenhuma e de todas.
- ?
= Eu Sou a religião.