sexta-feira, 1 de outubro de 2010


carta aos utopeus


os amanhãs que cantam.

o Real está com a esquerda.
o Real prefere a esquerda.
o Real ama a esquerda.


hoje vem aqui dizer:

). não capitule
estou contigo
(




engana-se quem pensa que o Real não prefere.
enganam-se aqueles que pensam que o Real reside impassível nas nuvens de uma neutralidade omissa.

o Real não é indiferente a nós.
o Real prefere e muito. Ele também tende.

mas o Real não se impõe na realidade dos homens.
ele respeita a liberdade dos homens, reais em miniatura.

os homens é que não respeitam a vontade do Real.
os filhos se rebelaram contra o Pai.
não o aceitaram. se rebelaram contra ele. se revoltaram contra ele.
e por fim o negaram.

o Real criou os homens e os pôs num jardim para que o cultivassem.
mas os homens recusaram a parceria, trocaram o jardim por um labirinto e a verdade do Real por uma imagem do Real.

perderam a capacidade de interpretar o Real.
esqueceram como se brinca de Outro e de esquecimento em esquecimento

morreram.

mortos conduzindo mortos.
eles usam uma falsa imagem do Real para legitimar sua rebelião contra o Real.
mas seu Real é Baal, o falso Real: o Deus das elites.
se faz passar pelo Real mas é só o Espetáculo do real.
uma paródia atroz.

fica então muito claro perceber de que lado está o Real.
quais são seus filhos prediletos.

pois são aqueles que não aceitam a sua não-aceitação, são aqueles que se revoltam contra a revolta, são aqueles que negam sua negação.

é a esquerda.
são os utopeus.
são os que no labirinto pegam à esquerda.

"a paródia é herdeira de toda a fraqueza do projeto filosófico ocidental, que foi uma compreensão da atividade dominada pelas categorias do VER; assim como se baseia no incessante alargamento da racionalidade técnica precisa, proveniente deste pensamento. ele não realiza a filosofia, ele filosofa a realidade. é a vida concreta de todos que se degradou em universo especulativo".
(Guy Debord - tese 19 SDE)

o não-dito aqui é evidente, precisamos de um mundo sustentado pelas categorias do ouvir.

do receber.
estar abertos a, como os ouvidos estão abertos para

a esquerda ouve o Real mas precisa saber interpretar melhor o que o Real está dizendo e perceber na sua própria fome de justiça o amor do Real chamando para algo tão ou mais desafiante do que o "outro mundo possível", que é o outro homem possível.


ouçam este homem. ele é o não-dito do homem deste mundo morto que aí está.
é o não-dito do grego.

é o Hebreu.
o homem que ouve
ele ouve o Real, ele fala com o Real, ele ama o Real.
a esquerda tem que conhecê-lo, ouví-lo

e acontecer este homem.
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pequena filocalia no harmonia..

gosto de estar com crianças e velhinhas.
as primeiras interpretam o tempo inteiro e quando a gente vê já voltou no tempo uns não sei quantos anos

"soltando a luz que reluz um outro olhar...

já as vovós conversam contigo como se te conhecessem desde os tempos do Gardel.
e rememoram, rememoram
e lá se vão com seus filhos da velhice, netinhos que também me dão thau, a gente volta amanhã

e lá me vou com a cabeça entre as orelhas
ao gasômetro

ao pôr do sol, à esse poente infinito de Porto Alegre, esse "até amanhã" de Deus aos gaúchos

pequena filocalia